FATURA COMEÇA A CHEGAR AO GOVERNO

por: Paulo Sérgio Xavier Dias da Silva

(Artigo publicado no DCI, edição de 13/04/09)

A máxima “se a economia vai bem, tudo vai bem“, parece cada vez mais apropriada para o recente caso brasileiro. De fato, enquanto o mercado interno crescia vigorosamente, mais a reboque da expansão do comércio internacional, a popularidade do governo Lula parecia intocável.Os sucessivos escândalos oriundos tanto do seu primeiro escalão, quanto da sua base aliada no Congresso, protagonista do famigerado mensalão, não eram capazes de abalar a reputação e o julgamento do desempenho governamental e, muito menos do nosso Presidente. Ao cidadão comum bastava, o seu emprego, o aumento da renda e os programas assistenciais que retiravam muito de nossos irmãos da pobreza absoluta.

Até boa parte da classe empresarial compartilhava daquela aprovação, pois a economia estava aquecida, e até os equívocos da política monetária eram tolerados.

Mesmo a oposição, sem dispor de um programa econômico alternativo, ficava quase sempre silenciosa, em cima do muro e sem forças para reagir politicamente, com medo da falta de respaldo popular.

Quando algum esclarecido argumentava que o crescimento tão enaltecido pelo governo era inferior aos de muitos países emergentes, que os juros básicos estavam em patamares estratosféricos e que o governo não estava fazendo sua lição de casa, era taxado de inconformado e pessimista.

A frase preferida “nunca na história desse País …“ precedia o anúncio das conquistas, muitas delas só resultaram em projetos incompletos ou promessas, e ficamos aguardando a ocorrência “do espetáculo do crescimento“. Entretanto, a crise econômica internacional, apelidada pelo Presidente, de marolinha, chegou para valer.

Como imaginar que uma crise financeira de sérias proporções gerada no seio da maior economia do planeta – responsável por grande porcentagem do comércio internacional e sendo o dólar, a moeda oficial das transações mundiais – não teria maiores repercussões  no Brasil? Seria muita ingenuidade ou sinal de arrogância e soberba.

Era evidente que o nosso primeiro mandatário não poderia sair apregoando o pessimismo, mas deveria ter reconhecido que apesar da crise ter conotação global, o Brasil estava em condições para enfrentá-la. E realmente estava, como comentamos no artigo do DCI, de 11 de fevereiro deste ano. Mas a equipe econômica não se preparou para enfrentar desafios e ficou na inércia, torcendo para que os efeitos adversos fossem mais brandos e de ligeira duração.

O Ministro da Fazenda, Guido Mantega, ainda afirmava nos EUA, depois do primeiro  encontro entre os presidentes  Lula e Barack Obama, que o governo ainda tinha muita bala na agulha. Só que a fera, ou inimigo a ser liquidado está crescendo e vindo para cima, e, se os disparos demorarem, não adiantará ter um revólver: será necessário acionar rapidamente, um canhão de grande calibre.

Até quando teremos essa poderosa arma em nosso arsenal econômico? O Banco Central, guardião de nossa moeda, com todos os dados e informações disponíveis, teve uma atitude míope, de manter por longo tempo, o juro básico extremamente elevado, na contramão das demais economias, e subestimou os efeitos da crise.

Só recentemente, admitiu seu erro, como consta do último relatório de inflação, divulgado em 30 de março, reconhecendo que, mesmo se a taxa Selic for reduzida para um dígito, a inflação ficaria abaixo do centro da meta.

Aliás, o final do mês de março foi um período nada agradável para o governo,  repleto de más notícias, que devem servir de alerta para uma mudança radical da  postura dos mentores da política econômica:

– retração do nível de atividade e dos investimentos, principalmente do setor industrial.

– redução da projeção do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto)estimada pelo Banco Central, para 2009.

– aumento do desemprego;

– início dos protestos dos sindicatos dos trabalhadores;

– decréscimo na arrecadação de tributos;

– corte substancial no orçamento, afetando inclusive setores estratégicos como educação e segurança;

– queda na avaliação do governo federal nas últimas pesquisas;

– diminuição na aprovação do desempenho pessoal do presidente.

Ou seja, parece que a festa acabou, mas os escândalos continuam. Enquanto as empresas cortam custos e demitem pessoal, o Palácio da Alvorada continua com quase 1.800 funcionários , repleto de assessores bem remunerados, e o Senado, ainda  está superlotado com 131 diretores, depois da extinção de 50 diretorias. Faltava espaço para tanto diretor, que até inventaram diretorias virtuais.

Só restava ter sido criada a Diretoria para Assuntos Escusos e Aleatórios.

Como o ambiente está mudando, as faturas da inércia e da incompetência da área econômica  estão chegando para o governo pagar. Se elas continuarem a serem enviadas para ao Palácio da Alvorada, em valores cada vez mais elevados, será que o governo vai ter “mais dinheiro político e apoio popular“ para pagá-las ?

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