“BANCOS E OS RISCOS DO NEGÓCIO“ – OS BANCOS PRECISAM RELEMBRAR QUE O RISCO FAZ PARTE DE QUALQUER NEGÓCIO

por: Paulo Sérgio Xavier Dias da Silva

(Artigo publicado no jornal DCI, edição de 25/05/09)

Se existe um segmento da economia nacional que parece estar sempre protegido e quase imune às diferentes turbulências econômicas, este é, indubitavelmente, o setor bancário.

Desde as dificuldades internas atravessadas pela economia brasileira, ao longo do tempo, até chegar na recente crise econômica internacional, o sistema financeiro, quase sempre, ficou isento e até lucrou com advento de panoramas adversos.

Mesmo em época de índices inflacionários altos, os bancos sempre apresentaram resultados consideráveis. Quando o Plano Real conseguiu reduzir a inflação a níveis mais toleráveis, o setor bancário utilizou como mecanismo de defesa para manter seu lucro, a elevação substancial das tarifas bancárias, evidenciando que também era “sócio da inflação“.

Acostumados com a percepção de lucros astronômicos, os bancos não se conformam com a perspectiva de qualquer redução e reagem através de lobbies poderosos e da conivência do Banco Central, como fossem “uma onça cutucada com vara curta“.

Não se pode questionar, porém, que os bancos investiram pesadamente em informatização de suas agências e na redução de suas despesas operacionais, apesar do elevado custo social, com enxugamento do seu quadro de pessoal.

Com sucessivas incorporações e fusões, viabilizadas pelos constantes lucros, racionalizaram suas atividades e obtiveram economias de escala expressivas.

Mas, os empresários dos setores produtivos ficam admirados e, de certa forma, até com inveja, por ocasião da divulgação dos balanços dos principais bancos, que apresentam lucros jamais imaginados para a sua atividade empresarial. Chegam até duvidar da sua própria capacidade empreendedora, particularmente os gestores das pequenas  e médias empresas, que expressam, em alguns momentos, estarem até satisfeitos com a simples sobrevivência dos seus negócios.

Situados numa zona financeira de conforto, os bancos não querem incorrer em maiores riscos, preferindo aplicar a maior parte de seus recursos disponíveis, em títulos públicos e  adotando um esquema seletivo muito rigoroso na concessão de empréstimos e financiamentos para a iniciativa privada.

Assim sendo, foram, até certo ponto, beneficiados pela manutenção, em patamares exagerados, da taxa Selic, atitude execrada pela maior parte da sociedade brasileira.

No que tange ao famigerado “spread bancário“, argumentam que o custo apropriado para a inadimplência, estimada em um terço da taxa de juros cobrada, é o grande obstáculo à redução dos créditos concedidos, mas não se esforçam o suficiente para acelerar a implantação do cadastro positivo.

Deve-se ressaltar, que mesmo quando ocorre uma inadimplência efetiva, os bancos não parecem muito assustados, face aos grandes resultados financeiros sempre realizados e na possibilidade de converter a provisão para liquidação de créditos duvidosos em despesa operacional , reduzindo o imposto de renda a pagar. Passado o período de compensação do prejuízo, até aceitam propostas de negociação para liquidar os seus empréstimos vencidos, valores que não atingem, em certos casos, a 20% do valor da dívida, o que demonstra o muito que já ganharam nas suas operações de crédito.

Com o advento da crise internacional a partir de setembro do ano passado, os bancos praticamente fecharam seus cofres, provocando o efeito conhecido como empoçamento de liquidez e ficaram mais seletivos no fornecimento de crédito ao setor produtivo.

Depois, que o Banco Central acordou de um longo tempo de hibernação, em que ficou dormindo e não teve a capacidade e competência, para adotar uma política monetária necessária para enfrentar a atual crise e, iniciou só recentemente, o processo de maior redução da taxa Selic, os bancos privados começaram a ficar incomodados.

Os fundos de investimentos gerenciados pelos bancos, atrelados, na sua grande maioria, aos títulos públicos, foram reduzindo as suas remunerações e, para o espanto dos pequenos investidores, as suas taxas começaram a encostar nas da caderneta de poupança.

Em vez, de diminuir as absurdas taxas de administração dos seus fundos de investimentos e diversificar suas aplicações, os bancos estão temendo, quem diria,  a concorrência das cadernetas de poupança. Justamente, desse investimento, do qual, segundo o próprio Banco Central, cerca de 95% dos investidores tem contas que atingem no máximo a R$ 20.000,00.

Logo, da coitada da caderneta, que parecia mais com “a mulher de malandro do mercado financeiro“, apanhando constantemente das demais aplicações, mas que o pequeno investidor se manteve sempre fiel, tanto pelo desconhecimento, quanto pelo medo, de se aventurar a investir em outros títulos, as suas tão suadas economias, amealhadas com muito sacrifício, ao longo de toda a sua vida.

Assim sendo, os bancos estão exigindo que o governo mude as regras da caderneta de poupança, para evitar um possível migração das aplicações de outros títulos. Este, também teme um possível impacto na redução da rolagem de sua dívida pública.

Como enfatizou muito bem, o editorial do DCI, de 08/05/09, se aprovadas as mudanças nas regras da caderneta de poupança vai ser como “mexer num verdadeiro vespeiro“, incorrendo num grande desgaste popular e fornecendo munição para ataques da oposição.

Se os bancos querem voltar a obter lucros generosos, têm que direcionar mais os seus recursos para créditos ao setor produtivo, aplicando tanto nos fundos de renda fixa, como nos renda variável, em empréstimos ou aquisições de ações de empresas nacionais.

Seria uma infantilidade, achar que os bancos não são capazes de identificar boas oportunidades de negócios, mas só agora terão que reconhecer que a época da acomodação e do lucro fácil acabou.

O cenário econômico mudou e todos os agentes econômicos têm que rever as expectativas de remuneração muito elevadas.

O grau do risco dos bancos vai depender da sua capacidade de gestão, do conhecimento do mercado e da economia em geral, da análise criteriosa da rentabilidade de cada projeto ou operação financeira, como faz qualquer empresário quando aporta recursos em seus negócios.

Ou seja, é necessário relembrar aos bancos, que o risco faz parte de qualquer negócio.

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