NECESSIDADE DE EQUACIONAR O ATENDIMENTO DO ACRÉSCIMO DE DEMANDA PREVISTO PARA 2010

por: Paulo Sérgio Xavier Dias da Silva

(Artigo publicado no DCI, edição de 04/12/09)

O governo tem que monitorar setorialmente o crescimento da demanda projetado para 2010, para evitar distorções na execução de uma política monetária equivocada.


As estimativas do mercado e da maioria dos economistas projetam um crescimento do PIB – Produto Interno Bruto, para 2010, em torno de 5%.

A expansão da demanda será impulsionada, mais uma vez, pelo desempenho do mercado  interno, já que a retomada do comércio externo será mais lenta, apesar dos sinais de recuperação do mercado internacional.

Os indicadores econômicos disponíveis sugerem que o setor industrial, um dos mais prejudicados pelo advento da crise internacional, vem crescendo e deverá recuperar, em 2010, os níveis de atividade observados em 2008.

Segundo os dados da FIESP, recentemente divulgados, a atividade da indústria paulista registrou um forte impulso nos últimos quatro meses. Em outubro, subiu 1,6%.

Porém, conforme avaliação do próprio diretor do DEPECON – Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da FIESP, Paulo Francini, parte desse acréscimo reflete à grande queda de 11,6% ocorrida neste ano  e de 11,2%, nos últimos doze meses.

Assim sendo, o setor industrial, mesmo mantendo um ritmo mais dinâmico  deverá fechar, neste exercício, com uma queda entre  8% e 8,5% , em comparação com 2008.

A recuperação dar-se-á, provavelmente, no segundo semestre de 2010, quando o nível de atividade industrial deverá voltar ao nível anterior à crise.

O uso da capacidade instalada também vem se acelerando, tanto na indústria paulista, com os 83,1% medidos em outubro pela FIESP, quanto a nível nacional, detectado pela FGV – Fundação Getúlio Vargas que chegou a 82,9%, neste mês.

O ponto de partida para a decolagem da produção industrial foi o mês de julho, deste ano e vem se mantendo no último trimestre.

As expectativas dos empresários para os próximos meses também evidenciaram melhora em todos os quesitos da pesquisa incluídos no ICI-FGV (índice de Confiança da Indústria).

Neste contexto, parece haver um consenso que haverá uma expansão da demanda e da oferta, em 2010. O problema é a calibragem na estimativa do consumo e quais mecanismos de política econômica, particularmente, a monetária, que o governo vai adotar.

O governo não pode se influenciar, pelo comportamento de alguns setores que estão próximos do limite da capacidade instalada, como os segmentos de parcela de bens duráveis, como veículos, produtos da linha branca e material para construção, que chegaram, aproximadamente, ao nível de 90%, beneficiados com a redução das alíquotas do IPI.

Existem outros setores, que ainda apresentam níveis significativos de capacidade ociosa. Por exemplo, na quinta-feira passada ( dia 26/11), tivemos a oportunidade de participar do VI- ENFOCAL – Encontro com Fornecedores e Consumidores de Alumínio realizado pela ABIFA- Associação Brasileira de Fundição e na palestra proferida pelo presidente daquela entidade, Sr. Devanir Brischesi, ficamos cientes que o setor de fundição vem operando com apenas 60% de sua capacidade instalada.

Outra constatação que nos impõem a uma maior reflexão, refere-se ao fornecimento  de peças fundidas direcionadas para o segmento automotivo que teve um acréscimo bem inferior ao alcançado por este setor, o que pode denotar um aumento da importação de determinados componentes dos veículos produzidos no Brasil.

Desta forma, o governo deve atentar para as diferenças setoriais, monitorar as importações, principalmente dos produtos oriundos da China e incentivar a ampliação dos investimentos nos demais segmentos industriais.

Uma das metas ambiciosas do PDP – Política de Desenvolvimento Produtivo é elevar a participação dos investimentos, em 21% do PIB, mas o governo pouco tem feito para viabilizá-la.

Como ilustração da incoerência da política econômica, O BNDES, nosso principal banco de fomento, aplicou, nos últimos cinco anos, a “bagatela” de mais de US$ 3 bilhões, em financiamentos de algumas construtoras nacionais para a realização de obras fora do Brasil, com objetivo de tornar o nosso País, uma potência líder na América Latina.

Do lado oposto, o governo não investiu adequadamente na nossa infraestrutura e logística, não reduziu o Custo Brasil e nem desonerou as exportações. O PAC, único programa de investimentos relevante, que já o denominamos  anteriormente,de Programa para o Adiamento do Crescimento, continua a passos de tartaruga com muletas.

O perigo maior consiste, na política monetária do Banco Central, que por miopia econômica, poderá se influenciar com as perspectivas de um crescimento mais intenso da economia previsto para 2010 e sua repercussão sobre as metas de inflação, aumentando os juros básicos, ”a única medida que realmente sabe fazer com maestria”.

É necessário conscientizar o governo, que a economia brasileira, tanto do lado da oferta, e muito mais da demanda, depende fundamentalmente do acesso ao crédito e do nível de juros.

A demanda se dilata mais facilmente, pois nossa economia apresenta um elevado nível de elasticidade-renda e o governo já percebeu dessa característica, quando ampliou os programas sociais para a população de baixo poder aquisitivo.

Por outro lado, a oferta requer maior período de maturação dos investimentos para a ampliação da capacidade instalada e para implantação de novas unidades produtivas, além das exigências de garantias institucionais e de confiança na política econômica.

Os empresários têm que ter o aval do governo que não serão mais penalizados, o custo dos seus investimentos a serem implementados não serão aumentados e a expansão da demanda não será contida com a elevação perversa da taxa SELIC.

Paulo Sérgio Xavier Dias da Silva é economista graduado pela Universidade de São Paulo (USP), consultor e assessor empresarial. Articulista do DCI e do Conselho Regional de Economia.

psxds@hotmail.com

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