Visão empresarial e o sindicalismo

Por: Paulo Sérgio Xavier Dias da Silva

(Artigo publicado no DCI em 18/07/2010)

O trabalhador deve se considerar o empresário de si próprio, e o empregador, tratá-lo como um parceiro estratégico.

A necessidade de empreender ações conjuntas na defesa da produção, do emprego e do desenvolvimento tecnológico nacional uniu os interesses e abriu novas perspectivas de relacionamento entre empresários e líderes sindicais brasileiros.

A luta contra o processo de importação desenfreada, desencadeado principalmente pela indústria automotiva e pelo descaso do governo federal, forçou um maior entendimento na relação capital-trabalho.

O empresariado nacional, não tendo mais eco, nas suas solicitações ao governo federal, pela implantação de uma política de desenvolvimento industrial, na árdua batalha da redução de juros, no combate ao aumento das importações e do esquema predatório adotado pelos nossos concorrentes asiáticos, voltou-se para o seu verdadeiro parceiro, os seus trabalhadores.

Estes, vivendo uma ameaça verdadeira do fantasma do desemprego, que assombra vários segmentos, que parecem não ser notados pelo governo, que delira e vangloria,achando que todos os setores de nossa economia vão bem, a exemplo da indústria automotiva.

De fato, esse setor vai muito bem, obrigado, mas sua cadeia produtiva vai muito mal, desde o seu elo inicial com a indústria de moldes e ferramentas, passando por máquinas e bens de capital, fundições até chegar às autopeças.

Neste cenário, seria interessante algum burocrata iluminado percorrer algumas regiões do ABC Paulista – berço do nosso ex-metalúrgico e ferramenteiro, presidente Lula, de Joinville, Caxias do Sul e outras, em todo o País, para observar que várias empresas estão colocando seus funcionários em férias coletivas forçadas, fechando postos de trabalho e algumas já cerrando suas portas, sem condições de competir com a fúria estrangeira, capitaneada pela invasão de produtos chineses.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior deveria mudar a sua denominação para Ministério do Desenvolvimento da Industriado Comércio Exterior, tanto que privilegia as importações em detrimento da expansão da indústria brasileira.

O crescente e avassalador déficit na balança comercial vai desequilibrando nossas contas externas, que só são compensadas coma entrada de recursos, atraídas pela maior taxa de juros do planeta, que podem logo escassear, em função dos problemas fiscais e financeiros ocorridos nos países mais desenvolvidos e em quase toda a Europa.

Já comentamos, em artigos anteriores, que o mercado interno brasileiro virou a bola da vez e que todas as nações estão interessadas em utilizá-lo para absorver o excesso de suas produções, com abrupta redução de seu poder de compra.

O pior de tudo é que o governo não acredita na capacidade do empresariado nacional de atender o acréscimo da demanda para combater qualquer sinal de aceleração inflacionária e prefere aumentar os juros e as importações absurdamente, sem nenhum critério e sem obter vantagens comparativas e compensatórias no comércio internacional.

Assim sendo, restou aos empresários sentar junto com os líderes sindicais para debater e definir uma estratégia de ação para reverter esse panorama adverso.Os líderes sindicais atuais estão bem preparados. Evoluíram muito nos últimos anos, estudaram, e a maioria já possui curso universitário e pós-graduação. Sabem se mobilizar melhor do que seus pares empresariais e muitos chegaram ao poder e estão ampliando suas bases nos legislativos estaduais e federais, tendo conseguido atingir o patamar mais alto da nação com a ascensão do seu maior representante, o presidente Lula.

Por outro lado, a base empresarial no Congresso Nacional é reduzida, em termos proporcionais, e faz muito tempo que não temos um empresário como presidente da República.

As dificuldades na busca de emprego fizeram com que muitos trabalhadores se tornassem pequenos empresários, e essa nova experiência propiciou uma mudança de mentalidade,uma nova visão sobre como é difícil a gestão de uma empresa neste País.

Em contrapartida, os empresários mais evoluídos notaram que os seus colaboradores devem ser tratados como parceiros e que os líderes sindicais não são mais seus inimigos virtuais, mas representantes de classe que lutam pelos mesmos ideais.

A mesma ótica, foi focalizada pelos trabalhadores, que perceberam que os empresários não são “mais exploradores”, que enriqueciam facilmente com o suor do operariado, através do ganho de altas margens de lucro que não existem mais.

O mundo mudou, e para ambos sobreviverem e desenvolverem-se conjuntamente têm de modificar sua postura.

Veja o exemplo atual dos líderes sindicais da região de São Paulo, ABC e Guarulhos, e dos presidentes das entidades de classe empresariais dos setores de fundição, autopeças e de máquinas, que estão se unindo e buscando uma solução de consenso para pressionar as autoridades econômicas, para superarem essa difícil situação que afeta todos os envolvidos.

O trabalhador tem de se considerar um empresário de si próprio, e o empregador, tratá-lo como um parceiro estratégico e prestador de serviços individual, essencial e prioritário.

Só resta o governo, os políticos despreparados e alguns líderes retrógrados acabarem como paternalismo nas relações empregatícias e procederem a uma reforma trabalhista abrangente, preservando os principais direitos adquiridos da classe trabalhadora, mas acabando com os excessos de encargos, a demagogia e o tratamento de incapaz atribuído aos trabalhadores.

Eles já estão maduros e em condições de negociar diretamente, com cada empresário, seus direitos, suas reivindicações e concessões, quando necessárias, conscientes da real situação financeira de cada empresa e dos diversos momentos atravessados pela economia brasileira e mundial.

Neste caso, quanto mais distante o governo ficar, melhor será.

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