Por uma nova política monetária

Vamos torcer para que Guido Mantega controle de fato os gastos públicos, reduzindo as despesas de custeio.

(artigo publicado no DCI em 15 de dezembro de 2010)

Por: Paulo Sérgio Xavier Dias da Silva

pxds@hotmail.com

Com a indicação do novo presidente do Banco Central para o governo de Dilma Rousseff surgem expectativas de mudanças na política monetária.

Henrique Meirelles, começando a limpar as gavetas na sala da presidência do Banco Central, achou as páginas arrancadas do seu livro de política monetária que abordam os demais mecanismos para combater a inflação, que não o simples aumento dos juros primários, procedimento quase exclusivo adotado durante sua gestão. Ao folheá-las, resolveu guardar o porta-retrato com a foto da Dona Bela, aquela famosa aluna da escolinha do Professor Raimundo, que“ só pensava naquilo”. E, em consonância com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e com outros membros da equipe econômica do novo governo, resolveu baixar algumas medidas macroprudenciais, que, até então, eram“macro prudente demais”, contraindo o crédito e aumentando o compulsório. Assim sendo, o Banco Central retirou R$ 61 bilhões de circulação da economia, através do acréscimo do depósito compulsório, e ampliou o requerimento de capital para operações de prazo mais dilatado e menor grau de garantia e restringiu empréstimos de longo prazo a pessoas físicas.

Demonstrando mudança no rumode sua política monetária, além das medidas anteriormente mencionadas, o Banco Central, na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), presidida por Henrique Meirelles, manteve a atual taxa básica de juros Selic, em 10,75% ao ano. Há muito tempo estamos reclamando de que a política monetária não poderia estar baseada somente no aumento da taxa de juros primários. A reclamação foi feita face aos efeitos nefastos para a dívida pública, gastos governamentais, câmbio e investimentos produtivos.

O acréscimo dos juros tem de ser uma medida pontual, de caráter emergencial, pois favorece muito mais a especulação financeira, principalmente as aplicações efetuadas por investidores estrangeiros, tendo em vista a gritante defasagem entre as taxas de remuneração alcançadas nos seus países, que chegam no máximoa 2% ao ano. Além de elevar a dívida pública às alturas, o gasto com o seu serviço impede o melhor direcionamentode recursos para áreas prioritárias, como saúde, educação e segurança. A enxurrada de capitais externos especulativos contribui para manter a supervalorização do real e inibe as exportações brasileiras, facilitando o processo explosivo do aumento desmensurado das importações, pavimentando, rapidamente, o caminho paraa nossa desindustrialização.

O círculo virtuoso do acréscimo da demanda interna ser atendido pelo crescimento da oferta fica seriamente comprometido, com o desestímulo aos investimentos produtivos, que, além disso, ainda são duramente penalizados no Brasil pela elevadíssima e complicada carga tributária. Vamos torcer para que Guido Mantega, turbinado por Dilma Rousseff pela sua manutenção frenteao Ministério da Fazenda,controle de fato os gastos públicos, reduzindo as despesas de custeio e aumentando os investimentos, para que, em curto prazo, atinjamos a taxa da FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo) na ordem de 25% do PIB, condição necessária para crescermos acima de 5% ao ano, sem maiores restrições.

O equilíbrio entre a produção industrial e o consumo das famílias passa também pelo aumento da poupança interna, fonte ideal para o financiamento dos investimentos necessários. O governo devecontrolar melhor suas despesas correntes e evitar que a economia brasileira tenha de recorrer às importações e à poupança externa. Neste contexto, a nova equipe econômica tem de implantar uma adequada política industrial, acreditando mais no potencial do empresariado nacional e incentivando e desonerando os investimentos produtivos, e priorizando o nosso desenvolvimento tecnológico. Papel fundamental será exercido pelo novo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, que deverá “mudar para o tom mini” e dar “uma verdadeira trombada” no processo de aumento dos juros, reduzindo-os, em termos reais, às taxas que são praticadas no mercado internacional. O forte aquecimento da economia brasileira no final do atual do governo deverá ser muito bem monitorado pelo governo de Dilma Rousseff para que a inflação não saia do controle. As políticas monetária, fiscal, cambial e industrial devem estar bem ajustadas.

Cabe mais ao governo fazer sua liçãode casa, reduzindo seus gastos de custeio e melhorando sua gestão na aplicação dos recursos públicos, evitando o desperdício, os desvios de verbas para entidades fantasmas e também a gastança em geral. Além disso, o governo federal terá de administrar as exigências dos novos ministros e administradores da base aliada, que estão chegando ávidos para abocanhar a maior fatia de recursos possível e impossível, para agradar sua clientela eleitoral e também seus financiadores de campanha.

No que concerne ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), não há que se preocupar. Mesmo tendo esse programa abundantes recursos disponíveis, o governo não consegue gastar as verbas alocadas e suas obras avançam na velocidade de uma tartaruga com distensão muscular, necessitando passar por uma recuperação física no competente Reffis, do nosso tricolor paulista.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: