Design for End-of-life

Por: Maria Aparecida Carvalho

 

Há uns trinta anos a idéia do design for assembly começou a ser disseminada no meio industrial. Foi ganhando força à medida em que se conseguiu medir as economias provenientes dos desenhos mais inteligentes, que, dentre outras vantagens, admitiam tolerâncias maiores e consequente menor rejeição de lotes. Hoje, até porque os computadores ajudam cada vez mais a compor os desenhos e a economia é um fato, este assunto nem é mais objeto de dúvida ou discussão.

Temos agora que encarar um novo desafio, que já vem sendo falado, explicado e implantado em algumas das maiores empresas montadoras há vinte anos. É o design for end-of-life.

Inicialmente a aplicação do design for end-of-life visava mais a reciclagem algumas matérias-primas, essencialmente as de maior custo ou as que eram consumidas em maior volume. Adicionalmente acrescentou-se a necessidade de se manter plataformas nos desenhos dos produtos, mudando-se apenas os acessórios e o acabamanto externo. Assim, não só os produtos podiam ser reciclados como se economizava tempo no desenvolvimento novos projetos (time-to-market) e recuperava-se algumas peças e materias-primas (para reutilização depois de recondicionadas e reciclagem, respectivamente).

Hoje um dos grandes problemas nas cidades é o que fazer com o lixo sólido. As prefeituras estão perdidas, tanto aquí como em boa parte do mundo. Existem inúmeras iniciativas mas todas incipientes: recuperam-se algumas matérias-primas mas a maior parte ainda vai para o lixo comum, é enterrada ou incinerada. A legislação brasileira já avançou, especialmente com a Lei 9605/98, o Decreto 3179/99 e mais algumas instruções normativas e resoluções de órgãos federais e estaduais. Segundo o CEMPRE, os produtos eletrônicos representam apenas 0,2% do lixo total coletado. A Europa, embora bem mais estruturada para este tipo de atividade, consegue coletar de 4 a 8 kg de produtos eletrônicos por ano, por habitante. Entretanto também não estão tão melhores assim em relação ao restante do planeta visto que boa parte destes produtos são destruídos e incinerados.

Mesmo com tecnologia e uma boa dose de vontade, existem algumas barreiras que precisam ser derrubadas. Recuperar materiais e matérias-primas tem seu custo e, tanto o desenho do produto como a identificação dos materiais pode reduzir este custo de recuperação drasticamente. Os engenheiros projetistas podem contribuir de forma direta para a redução dos custos para recuperação das matérias-primas no final da vida de um produto.

Muitos produtos contém materiais perigosos para manuseio. O ideal é que cada produto tenha identificado claramente quais são os componentes que contém estes materiais (ácidos, mercúrio, berílio, etc.) e onde estão localizados. Sim, sabemos que estamos  aumentando o custo do produto acrescentando essas informações, por exemplo, em uma etiqueta permanente, fixada do lado de fora do produto. Mas, por outro lado, estamos reduzindo acidentes e o custo de recuperação destes e de outros inúmeros materiais. Informações como tensão da rede ou, mais recentemente, sobre o consumo de energia de produtos eletrônicos foram incorporadas aos produtos e nenhuma indústria fechou por causa do custo da etiqueta adicional.

Outra forma de identificação desses componentes que contém substâncias perigosas pode ser por impressão ou desenho em alto-relêvo indicativo da sua localização na face interna de uma das tampas ou portas principais do produto.

Adicionalmente, lâmpadas, baterias e outros dispositivos e sub-conjuntos que contém substâncias perigosas devem ser fixados ao produto de forma que possam ser removidos facilmente. É comum lâmpadas se quebrarem durante a remoção e encontrar-se pequenas baterias soldadas nos circuitos impressos, principalmente em produtos de pequenas dimensões e de custo menor como brinquedos e relógios.

Algumas indústrias, como a HP-Compaq já disponibilizaram estas informações para os recicladores, seguindo uma diretriz da WEEE – Waste Electric and Electronic Equipment – da European Comission. É um exemplo a ser seguido.

Considerando-se que, no caso de computadores, por exemplo, a maior parte da energia gasta é na sua produção (estimada em 80% por Ruediger Kuehr e Eric Williams), o design for end-of-life é essencial para que se possa recuperar produtos que ainda podem ter uma sobrevida, estimada por vários autores como de 3 a 5 anos para este tipo de produto. Ou seja: estaremos proporcionando ao mundo uma economia muito grande, se considerarmos só a energia, se facilitarmos a recuperação de produtos para reutilização com simples alterações nos projetos e com a comunicação destas alterações para os recuperadores. Para estes, até a triagem dos produtos torna-se, por vezes, difícil, visto que boa parte dêles não traz informações completas sequer sobre a data de fabricação, modelo e componentes funcionais, informações que ajudariam em muito a sua recuperação para reutilização.

O uso de poucos tipos de elementos fixadores, componentes encaixáveis e a localização consistente de subconjuntos comumente usados naquele tipo de produto ajudaria em muito não só as empresas dedicadas à recuperação de produtos como as dedicados à recuperação de matérias-primas.

Outro elemento a considerar é a padronização de alguns componentes. Há uma variedade imensa de lâmpadas com tensões e forma de fixação diferentes. As próprias fontes de energia são diferentes para cada equipamento que se compra. Alguém até já sugeriu que estes elementos fossem padronizados como as tomadas USB e outras.

Como se pode ver, há um longo caminho a percorrer mas, se queremos sobreviver neste mundo, temos que fazer alterações na nossa base de conceitos até na hora de desenhar um produto.

Não tocamos no assunto embalagem destes produtos. Este tópico já foi bem explorado no nosso livro Engenharia de Embalagens. É um complemento às colocações que fizemos resumidamente neste artigo.

Design for end-of-life é uma questão de sobrevivência, tanto do planeta como das indústrias. Os seres vivos só ganharão. (Você, eu, meu gatinho, o cachorro do vizinho e cada árvore plantada lá na pracinha.)

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