Design sustentável – até onde estamos sendo responsáveis ?

Afinal o que é ? Já vimos mil definições e explicações, algumas até muito tendenciosas, seja politicamente, seja idealísticamente. A verdade é que estamos encalacrados em um beco mundial, de proporções imensas e, na maior parte do tempo perdidos e oscilando entre o nosso desejo de desenhar algo perfeito para atingir o objetivo (que imaginamos ser o ideal) e a pressão dos custos pré e pós-consumo, este uma novidade para todos.

A melhor definição que encontrei para design sustentável é: design que atende às necessidades de agora e não compromete o ambiente para que as futuras gerações sobrevivam adequadamente.

Aí poderíamos fazer mil considerações sobre o que é “atende às necessidades de agora”, “não compromete o ambiente” e “sobrevivam adequadamente”. Deixo todas ao encargo dos leitores, que são inteligentes e não precisam dos meus pitecos nisso.

Não vou discorrer sobre os custos associados à obtenção de matérias-primas, disposição de resíduos, processos de produção e tudo mais que sabemos ser melhor ou danoso ao ambiente. Nossos profissionais já estão bem sabidos à respeito e buscam informações novas a cada segundo. O importante é não deixarmos para o futuro, seja este amanhã ou daquí a alguns anos, o que já podemos fazer agora. Sempre negligenciamos nisto. Fica para depois, para o próximo ano ou o próximo produto.

Nosso papel enquanto designers de produtos é tentar conciliar as necessidades de se ter um produto mais inteligente quanto ao impacto no ambiente e convencer os clientes (quem paga a conta) de que estamos cuidando para que o impacto futuro seja o menor possível, impacto este tal qual definido lá no segundo parágrafo. Ou seja: nossa proposta de design tem que ser tal que seja economicamente viável e, ao mesmo tempo, reduzam o impacto no ambiente e na  sociedade quando comparados com outros projetos.

O maior problema a se enfrentar é que isto tem que ser verdade e não uma coisa maquiada. Hoje, qualquer macaco mal treinado consegue ver os “furos” em boa parte dos projetos apresentados como sustentáveis. Um dos melhores exemplos é a reciclagem dos materiais de que são compostos alguns produtos e o respectivo alarde que se faz sobre a sustentabilidade.

A maioria dos materiais são recicláveis sim, como também esta mesma maioria não é coletada adequadamente. Não temos coleta seletiva na maioria das cidades do mundo e, adicionalmente, a recuperação das matérias-primas é incipiente, inexiste ou é extremamente cara. Isto sem falar que algumas matérias-primas são reaproveitáveis quando adicionadas à matéria-prima virgem mas somente em quantidades ínfimas, na maioria das vezes não passando de 10% em peso ou volume. Acabamos mesmo é com os lixões abarrotados de materiais que seriam aproveitáveis, parte do chamado primeiro mundo mandando lixo para alguns países da África (e, às vezes, para o Brasil), pessoas vivendo em péssimas condições enquanto tentam aproveitar algum material para conseguir dinheiro para comer ao final do dia e milhares de pessoas mortas por doenças que adquiriram sem saber porque.

Enfim, o que a sociedade precisa, mais do que tecnologia, é que desenhemos produtos, processos, serviços e infraestrutura que movam a sociedade para a frente, em direção ao que entendemos hoje como o que deve ser uma sociedade sustentável. Adicionalmente as iniciativas para coleta e análise de dados deve ser requerida e incentivada por toda a sociedade. Aí já estamos falando do papel do cidadão, que deve cobrar estas ações dos governantes.

Claro que quando coloco estas idéias para meus parceiros, vizinhos, colegas de profissão ou alunos, a maioria não gosta, pois é mais fácil deixar como está. Concordo. Só que os acidentes estão por aí, nos noticiários de cada dia. Só sentimos mesmo o peso da nossa indiferença quando temos uma enchente à nossa porta ou descobrimos que compramos um imóvel em um local cujo solo é instável ou libera gases perigosos.

Temos mesmo, enquanto designers, é que ser mais atuantes nesta nossa profissão, desenhando produtos que, além de serem melhores sob o ponto de vista sustentável nos aspectos matérias-primas (renováveis, reutilizáveis, recicláveis, reutilizadas), processos (que consomem menos energia, não liberam resíduos danosos ao ambiente) e plataformas reutilizáveis (para upgrades contínuos), temos sim, que desenhar produtos que inspirem a população a se educar para evitar o desperdício.

Observem que, em nenhum momento, falo sobre reduzir consumo, deixar de usar produtos práticos, descartáveis ou voltar a andar de carroça, só ter duas mudas de roupa ou deixar de ter um telefone do último modelo. Não estou pregando modéstia. Estou pregando evitar o desperdício de materiais, energia, água e manter o ambiente o mais limpo e descontaminado possível. Enfim: só estou cumprindo minhas obrigações como cidadã, professora, profissional, mãe e filha.

A maioria das invenções necessárias para atingirmos estes objetivos já existe. Agora estamos na fase do saber usá-las. É onde entra a inteligência e temos que sair da nossa zona de conforto, do “sempre fizemos assim e deu certo”.

Inteligência e competência é o que precisamos, desde para desenhar um alfinete até para questionar se precisamos de alfinetes ou podemos desenhar algo bem mais ambientalmente adequado.

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